Somente em 2025 o Corpo de Bombeiros do Amazonas recebeu 56.866 ligações de trotes pelo número de emergência da instituição, o 193, em Manaus. O quantitativo representa uma média de 4.738 trotes por mês, 155 por dia e 6,4 ligações a cada hora. Isso somente para uma instituição que nos protege e que salva vidas e patrimônios.
Um crime que impacta diretamente no atendimento de urgência e emergência, pois uma viatura que está em deslocamento para uma ocorrência falsa poderia estar salvando vítimas de um incêndio de grandes proporções. Ou seja, cidadãos podem morrer sem atendimento imediato por causa de uma “brincadeira criminosa”.
O mesmo crime é cometido contra o Samu, Polícia Militar e demais instituições que trabalham com esse tipo de atendimento. A sociedade, portanto, não pode tolerar esse tipo de comportamento, pois também estamos constatando a cada dia o aumento alarmante de acontecimentos condenáveis, tais como as agressões e assassinatos de mulheres, e os assassinatos cometidos por motoristas embriagados, que muitas vezes são abafados ou esquecidos pela imprensa, com o cruzar de braços da própria sociedade. Sem contar com a complacência das vossas excelências que ocupam os altos escalões dos 3 Poderes.
A sociedade tem parcela de culpa em tudo isso. Ao fazer olhar de paisagem e sem ir para as ruas ou estabelecer pressão em cima dos governantes, dos órgãos competentes e das diversas autoridades, sabemos que os casos irão para o arquivo morto ou para baixo do tapete, sem punição.
Infelizmente as pessoas só se comovem quando acontece uma tragédia com alguém conhecido ou famoso. Mas quando a vítima é um anônimo, facilmente esquecem. Ou abafam os casos.
Apesar da gama de normas e padrões de conduta discutidas e estabelecidas pela sociedade, a cada dia cresce o número de infratores que, a bel prazer, vivem se divertindo maquiavelicamente, sem ao menos se importar ou imaginar que um dia poderá ser o alvo de um abominável trote ou precisar de um serviço ou bem público e não terá sua necessidade atendida.
Considerando que todos os recursos que o Estado utiliza para manter suas atividades essenciais e ainda investir em projetos de melhoria da qualidade de vida da população advêm das contribuições que cada um faz através dos impostos, não deveria haver espaço para tanto desperdício de dinheiro público, através de depredações e vandalismo conta o patrimônio público.
Bem mais que pichar, quebrar ou inutilizar, passar trote para os serviços que servem para atender as emergências da população causa um prejuízo implícito aos cofres públicos, pois os desgastes das viaturas, sejam ambulâncias, policiais ou bombeiros não estão expostos, nesse primeiro momento.
Na ponta do lápis sabe-se que por causa de um trote muito dinheiro é jogado fora, quer seja pelos equipamentos utilizados ou no pagamento de pessoal para atender às falsas emergências. O que fazer, então? De plano, a primeira ideia que logo vem à cabeça, na tentativa de enfrentar essas atitudes reprovadas pela sociedade, passa pela escola. Ou seja, reside na escola e na família a fórmula para exterminar esses tipos de atitudes e manifestações marginais?
Às vezes, a sobrecarga de disciplinas contidas nos currículos escolares, independentemente de ser instituição pública ou particular, favorece a formação do aluno com o estrito interesse de dominar o conhecimento, com claro objetivo de apenas obter nota suficiente para ser aprovado e, por conseguinte, ter direito a um diploma que supostamente o credenciará a um bom lugar no concorrido mercado de trabalho. É nesse instante que se estabelece uma lacuna entre a formação de mão-de-obra, pura e simplesmente, e o cidadão preparado para a vida, no seu mais amplo sentido.
Não podemos esquecer, também, da possibilidade de empreendermos um verdadeiro mutirão cívico, envolvendo escolas, famílias, igrejas, meios de comunicação, políticos e até os artistas, que através de seu carisma e popularidade, poderiam mudar mentalidades, visando o redirecionamento da pujante energia dos jovens, através da conscientização e orientação para o exercício da solidariedade.
*Auditor fiscal e professor